31 de janeiro de 2020. Segundo dia.
Hoje acordei ainda mais no susto que ontem. Por alguma razão, minha esposa perdeu o horário de acordar, levantando apenas 06h30min. Acabei acordando com ela, a fim de a auxiliar para que ela pudesse sair no horário correto. Hoje, também, foi a aplicação do primeiro adesivo de nicotina dela. Eu, como comentei antes, decidi por aplicá-los à noite, mas ela preferiu escolher o horário da manhã. A razão foi a mesma: o adesivo não pode ser molhado, o que, em teoria, limita a pessoa a um banho por dia – com cuidado, essa limitação pode até não existir, mas não confio na minha capacidade –.
Enfim, fiz café para ela e mim, não comi nada, e ela saiu. Logo depois, minha mãe acordou, e me pediu para que eu a acompanhasse ao cartório a fim de obter uma segunda via da certidão de óbito de minha avó, falecida em 1998. Aquiesci, e enquanto não dava 09h00min, horário acertado para sairmos, pus-me a escrever o registro do dia anterior deste diário – pode parecer uma escolha pouco usual, escrever o diário depois de dormir, mas o calor onde moro torna qualquer atividade minimamente intelectual virtualmente impossível, e de manhã é mais fresco do que à noite –. Li mais um pouco, elaborei um documento que minha mãe precisaria apresentar em um outro lugar, e saímos depois de 10h30min – minha mãe precisou resolver umas outras coisas, por isso o atraso –.
Preciso, antes de continuar este relato, dizer a você, caro leitor, como odeio sol e calor de um modo em geral. Em qualquer lugar minimamente decente para se viver, às 10h30min a temperatura e a sensação térmica estariam aprazíveis. Aqui em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, o calor era tal que parecia haver um sol em cada um dos poros de minha pele. Se você, caro leitor, gosta de sol e calor, por favor: não fale isso na minha frente, sob risco de perder todos os dentes de sua boca.
Retomando, pegamos o ônibus e saltamos em frente ao Supermercado Guanabara da Rua Tenente José Dias, no centro de Duque de Caxias, e de lá seguimos até o cartório, localizado em uma galeria ao lado do Supermercado Extra da Avenida Governador Leonel de Moura Brizola, à pé. No caminho, compramos um porta-crachá para o RioCard (cartão vale-transporte eletrônico) de minha mãe e conversamos sobre o roteiro do dia: passaríamos em um cartório para pegar a referida certidão, comeríamos algo, e então seguiríamos para outro cartório, a fim realizar reconhecimento de firma da assinatura de minha mãe no documento que eu elaborara mais cedo.
Devo confessar, caro leitor, que, embora nada houvesse comentado com minha mãe, eu estava muito orgulhoso de mim mesmo. Ontem, quinta-feira, eu não havia sentido nenhuma vontade de fumar, mesmo antes da aplicação do adesivo, e hoje, também não sentira até então. Para aqueles que me conhecem, sabem que a única coisa que me tirava do estupor zumbi após acordar era o primeiro cigarro do dia. Meu orgulho residia menos no fato de eu não ter sentido vontade de fumar, e mais no fato de eu não ter acordado com o tal estupor. Pela primeira vez em anos, eu acordei desperto. Mérito do adesivo ou de minha vontade, eu não sei, mas senti orgulho mesmo assim. Mesmo se fosse efeito do adesivo, o mérito real era meu, pois eu não só havia me decidido, como eu agi.
Eu parei de fumar.
Note, caro leitor, que eu disse aqui _eu parei de fumar_, não _eu estou parando de fumar_. Palavras tem poder, caro leitor, e os fatos são tal como eles podem ser descritos – leia Wittgenstein se você quiser se instruir mais sobre esse conceito –. Quando eu digo _eu estou parando_, significa não só que ainda não parei, como, por ser uma ação ainda em movimento, essa ação pode ser abortada a qualquer momento. Mas, quando eu digo _eu parei_, pretérito perfeito do indicativo, indico ser uma ação já concluída, uma ação que não pode nem será desfeita. Significa algo que já fiz, já concluí, não algo que estou fazendo e posso não concluir.
Portanto, friso: **parei de fumar**.
Você notará, também, caro leitor, que talvez o texto não esteja ficando com os itálicos e negritos que eu pretenda que ele fique. Eu uso um editor externo para redigir esses diários, e faço a postagem neste blog por e-mail. Não sei como o motor do blog renderiza códigos _markdown_, mas assuma que: primeiro, palavras entre traços-baixos (_) estão em itálico; segundo, palavras entre asteriscos duplos (**) estão em negrito.
Voltando... Foi com esse orgulho que chegamos ao cartório. Estava cheio, já que era dia de celebração de casamentos também, mas fizemos nossa solicitação no balcão apropriado e nos pusemos a aguardar a emissão da certidão de óbito da minha avó. Era 11h37min quando fomos atendidos – marque bem essa hora, caro leitor –, sei bem porque foi o horário que minha irmã me mandou uma mensagem com os dados necessários para que os escreventes localizassem o livro com as informações solicitadas.
Acontece que a certidão só nos foi entregue 14h45min. Isso mesmo: três horas de espera. Lá pelas 13h50min senti vontade de fumar, mas não encarei isso como um motivo de vergonha. Primeiro, já havia mais de trinta e seis horas que eu não fumava; segundo, uma das razões que me levou a procurar um psicólogo foi síndrome do pânico, e o cartório estava muito cheio. Observando a vontade que surgira, notei que era menos vontade de fumar, e mais vontade de sair dali. Não só não saí do lugar, como não acendi um cigarro. Vitória. Sucesso. Orgulho.
Como eu escrevi há pouco, **eu parei de fumar**.
Caso você, caro leitor, esteja pensando em parar de fumar, fica um conselho baseado na minha experiência: pare de fumar. Não pense, não comece a parar, não vá parando. Pare. Seja parando abruptamente, seja reduzindo até parar, aja. Como a enfermeira Vera disse na reunião de ontem, parar de fumar começa na sua mente. Como eu escrevi ontem, por várias vezes quis parar, mas desejo sincero, vontade de parar, só agora.
Diga para você mesmo, _eu parei de fumar_, mesmo que você pare aos poucos. O primeiro passo é adequar como você se vê. Se você quer parar de fumar, refaça sua autoimagem, reconstrua a ideia que você tem de você mesmo. Se você quer parar de fumar, se veja como um ex-fumante, não como uma pessoa que está parando de fumar.
Se você não quer parar de fumar, tudo bem. Fumei por anos, quem sou para dizer que você está errado?
De minha parte, eu repito: **eu parei de fumar**.
Continuando com o relato, minha mãe e eu saímos do cartório azuis de fome. Ela havia comido uma fatia de pão de forma; eu, só uma caneca de café. E, como já passavam das 14h45min, não haveria nenhum restaurante _self-service_ disponível para um almoço acessível. Como minha mãe adora comer no McDonald's, eu sugeri que pegássemos alguma promoção lá, apesar de detestar aqueles microssanduíches. Comemos e jogamos alguma conversa fora por um tempo. Ela tem mais de sessenta anos, e não vai estar por aí para sempre. Não custa nada comer sanduíche de isopor com ela de vez em quando. Depois do McDonald's, fomos ao segundo cartório, mas nesse não demoramos muito. Voltamos para casa, e o sol (que já parecia correr em minhas artérias e veias, tão absurdo era o calor que fazia) tornou-se ainda mais inclemente por causa de uma pancada de chuva que durou menos de dez minutos.
Mal chegamos em casa, veio pela primeira vez a tristeza por ter entrado no programa antitabagismo – curiosamente, não foi por causa de parar de fumar –. Segundo instruções que recebi da enfermeira Vera, eu não poderia molhar os adesivos de nicotina, logo isso me limita a um banho por dia apenas, e, como os adesivos devem ser aplicados sempre no mesmo horário, no meu caso significava dizer que só poderia tomar um às 21h00min, mais ou menos. Pois bem: parecia que havia um Oceano Atlântico inteiro em suor escorrendo pela minha pele. Já era quase 16h30min quando simplesmente me abandonei à cama, e fiquei escorrendo, lastimosamente, amaldiçoando a pessoa que teve a ideia de um dia considerar que calor era algo desejável para nossa espécie.
Passei a tarde conversando com uma amiga via Discord e configurando algumas coisas em meu computador antes de me tornar novamente útil para o mundo, às 19h30min aproximadamente. Desci para o gatil, a fim de cuidar de meus filhos e filhas, mas já estava a passar tão mal em virtude do calor que minha mãe se voluntariou para me ajudar. Subi já à hora do banho, que tomei longa, deleitosa, gozosa e prazerosamente. Havia alguns anos que eu não tomava um banho que durasse mais do que 40min. Senti que merecia.
Afinal de contas (e sim, repetirei isso quantas vezes sentir que mereço acariciar meu ego), **eu parei de fumar**.
Segundo conselho meu do dia para você, caro leitor: seu ego é seu amigo nessas horas. Qualquer pequena coisa que você consiga fazer no intuito de parar de fumar (reduzir quantidade de cigarros por dia, espaçá-los mais, olhar para o cigarro na sua mão e não o acender) é uma vitória. Comemore. Dê-se uns bons tapinhas nas costas. Massageie seu ego, pois dele virá a vontade que você precisa ter.
Saí do banho para descobrir que minha esposa já havia chegado, mas ignorei a tudo e a todos. Tenho prioridades: corri para logo por o adesivo. O dia de hoje me fez ver que esse negócio funciona e realmente ajuda a parar. Para você, caro leitor, ter uma noção: no momento em que escrevo esta postagem, é 01 de fevereiro de 2020, 11h40min, e só senti vontade de fumar apenas uma vez desde quinta-feira, dia 30 de janeiro.
Claro, não é um mar de flores. Estou me sentindo mais irritadiço, há um enjoo que cisma em não passar (apesar de eu estar bebendo leite de magnésia direto do gargalo), a boca está com gosto de papel alumínio, e só posso tomar banho uma vez por dia, apesar de minha sudorese equivaler à de umas seis pessoas juntas. Mas, refletindo friamente sobre a questão, se eu conseguisse parar de fumar sem auxílio, não precisaria passar por isso, mas, como não consigo, é aceitar que essas farão parte das regras do jogo da minha vida por um tempo. Voltamos à _Oração da Serenidade_:
> Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras.
Tem uma belíssima discussão sobre a _Oração_ no endereço https://www.aa.org.br/index.php/sobre-o-a-a/categorias/sobre-a-a/85-oracao-da-serenidade, recomendo a leitura. Não, não sou cristão, mas há certas mensagens, como a _Oração da Serenidade_ ou a _Oração de São Francisco de Assis_, que são universais. Para mim, quando decidi parar de beber (há um ano e quatro meses, mais ou menos), essas mensagens foram essenciais. Talvez, eu devesse ir a alguma reunião do AA só para compartilhar com eles o bem que essa mensagem me fez.
Mas retornando ao relato do dia... No mais, minha esposa, minha mãe e eu jantamos e conversamos até dar a hora de dormir. Tive uma crise de insônia, mas é porque eu estava brincando de editar as cores de uma foto só para ver seu conseguia. E assim terminou o segundo dia dessa jornada.
Lembrando: **eu parei de fumar**.
Diário de um ex-fumante
sábado, 1 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 31 de janeiro de 2020
30 de janeiro de 2020
Decidi, enfim, que iria parar de fumar. Com o auxílio de meu psicólogo, dr. Ruimar Marques, consegui me inscrever no programa antitabagismo do Posto Municipal de Saúde (PMS) do Pilar, em Duque de Caxias/RJ. O primeiro encontro com os profissionais do programa foi marcado para hoje. Coincidentemente, é meu aniversário.
Acordei no susto, era 06h00min. Hoje também foi o primeiro dia de trabalho da minha esposa, após alguns meses desempregada, e ela estava bem nervosa. Ela me acordou, na verdade, para que eu a ajudasse a não se atrapalhar ou ficar ansiosa e, por conta disso, travar. Olhei para o maço de cigarro, que fica na varanda já que nunca gostei de fumar dentro de casa, e pensei, _fique aí quietinho_. Já que eu iria para o primeiro encontro do programa antitabagismo hoje, por que eu iria acender um cigarro?
Pausa para uma explicação. Você, leitor, não me conhece, e portanto pode não saber que observo proximamente os preceitos do estoicismo. A ética estoica, com seu fundamento puramente racional e realista – algumas pessoas diriam fatalista ou conformista –, sempre me atraiu deveras, principalmente pela parte do não me deixar afetar por situações nas quais nada posso fazer para mudá-las. Gosto de citar uma passagem que meu sifu, à época em que eu praticava tai chi chuan, atribuiu à Buddha: _Se tem solução, não é um problema; se não tem, não é um problema_. Vem-me à mente, também, a _Oração da Serenidade_. Para quem não conhece a ética estoica, esses dois fragmentos de sabedoria servem, perfeitamente, para ilustrá-la.
Mas voltando. Minha esposa saiu para trabalhar, e eu voltei a dormir, pois a reunião era apenas às 13h30min e eu não conseguira fechar os olhos porque o sono dela foi muito agitado. Minha mãe me acordou às 09h00min, havia um pequeno reparo hidráulico a ser feito na casa da minha tia, minha vizinha, e talvez eu tivesse que ajudar, já que meu primo – que é quem costuma fazer isso para ela – talvez não pudesse. Felizmente meu primo pôde comparecer, e pude descansar mais um pouco.
Passei a próxima hora e meia lendo. Se senti vontade de fumar nesse meio tempo, não percebi. Minha mente é uma coisa engraçada: se eu enfio nas idéias que irei fazer algo, eu farei esse algo. Por que eu não parei de fumar antes, então? Resposta curta: não é apenas uma questão de querer parar de fumar, é uma questão de desejar parar de fumar. Entenda, leitor: querer e desejar, no sentido de vontade soberana, são coisas distintas. Certo, talvez se, ao invés de _querer_ e _desejar_, eu usar _ter desejo_ e _ter vontade_, fique mais fácil explicar-lhe o que quero dizer. Já tinha, há pelo menos um ano, o desejo de parar de fumar, mas só agora consegui condensar e cristalizar minha vontade nesse sentido. As pessoas, incluindo eu, querem muitas coisas, mas nem sempre conseguem focar a mente e a vontade para consegui-las.
Após a leitura, ajeitei algumas coisas em casa antes das 12h00min, o horário que eu havia estipulado para almoçar e sair de casa. Foi na hora do almoço que notei o primeiro efeito da ausência da nicotina: eu estava absolutamente sem fome, mesmo não havendo comido nada o dia inteiro. Para não ficar com o estômago vazio, comi um bife e uma fatia de pão, tomei meu banho e saí.
Caso o leitor não conheça Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, não vai entender o quanto eu me odeio sempre que preciso fazer algo por esse horário. No verão, o sol parece estar a uns cinquenta metros da sua cabeça e com o mais firme propósito de cozinhar as pessoas em vinte minutos. Sensação térmica de uns 48º, para quem gosta dos números. Com a usual resignação ante às coisas que não posso mudar, caminhei os quinze minutos que separam minha casa do ponto do primeiro ônibus que eu deveria pegar, sentindo minha pele fritar e as distâncias quadruplicarem. Parei em uma loja de doces para comprar a primeira garrafa d'água do dia, que bebi em um único gole.
Para minha sorte, o ônibus passou quase no mesmo momento em que cheguei ao ponto. Embarquei e fiquei ouvindo o motorista conversar com uma passageira, amiga dele, para me distrair. Saltei em Gramacho, com o propósito de pagar o IPTU na casa lotérica antes de pegar o segundo ônibus, mas o tamanho da fila me fez mudar de ideia, já que era 12h30min e eu tinha, portanto, apenas uma hora para chegar à reunião do programa antitabagismo – para quem não conhece, leva-se uns 30min, 40min, de ônibus entre os bairros de Gramacho e Pilar, e eu ainda teria que considerar a espera. Entretanto, minha boa sorte se manifestou mais uma vez, e não esperei nem cinco minutos para embarcar no ônibus que me deixou no PMS Pilar às 13h00min.
Comprei outra garrafa d'água, que também bebi toda de uma vez. Essa meia hora, gastei conversando com Tonhão, um camarada que vende salgados e refrescos em uma bicicleta. Como nesse momento eu senti fome, comi um hambúrguer de forno dele, a carne artesanal bem temperada apesar de um pouco dura – ele deve ter fritado o hambúrguer antes de levá-lo ao forno –, mas foi uma conversa ligeira, dessas de fila de banco apenas para matar o tempo. Fiquei com uma boa impressão dele. Semana que vem, dia da próxima reunião, caso ele esteja por lá, comprarei outro salgado e conversarei mais um pouco com ele.
Às 13h20min, fui para o local das reuniões do programa antitabagismo. A responsável pelo atendimento, enfermeira Vera, colheu alguns dados meus e de minha esposa, já que ela também havia agendado participação mas, como ela não é Santo Antônio para estar em dois lugares ao mesmo tempo, não pôde ir. Enquanto aguardava, fiquei conversando com seu Jorge, um senhor que, assim como eu, estava ali pela primeira vez. Ele falava muito baixo, ou o ruído de fundo no PMS era intenso, de modo que não conseguia entender tudo que ele me dizia, mas mesmo assim apreendi um pouco sobre sua história de vida. Ele está na luta contra o câncer de próstata, e pelo que entendi a família dele não o apoia muito nessa luta. Apesar disso, seu Jorge é uma pessoa bem-humorada, que brinca, faz piadas da própria situação e tenta manter uma postura positiva perante a vida.
Enfim, a reunião. Havia ali umas dez pessoas que, assim como seu Jorge e eu, querem parar de fumar – espero que também desejem isso –, e Vera nos deu uma preleção sobre como o programa antitabagismo é um mero suporte para ajudar a cada um de nós a parar. História longa feita curta, se não houver o desejo por parte do participante, de nada adianta o programa. Ela também explicou o uso, cuidados e restrições dos adesivos de nicotina, e abriu para perguntas. Como não as havia, ela distribuiu uma cartilha, com informações e exercícios cognitivos que fazem parte do programa antitabagismo. _De volta à escola_, pensei, mas afastei essa rejeição de pronto da minha mente: se eu conseguisse parar de fumar sem o programa, eu não precisaria disso, mas como não consigo, sigo as regras do programa.
Peguei a prescrição semanal de adesivos de nicotina para minha esposa (14 mg) e para mim (21 mg), agendei o retorno para avaliação e mais adesivos para semana que vem, dia 06 de fevereiro de 2020, e encaminhei-me para o ponto de ônibus. Se ao meio dia o sol parecia estar a uns cinquenta metros de minha cabeça, às 14h20min ele certamente estava dentro das minhas roupas. Peguei o ônibus de volta para o Gramacho, e desta vez tive de encarar a fila da casa lotérica para pagar o IPTU. Felizmente, havia umas quatro pessoas na minha frente só, de modo que rapidamente me desembaracei dessa obrigação e voltei para casa.
Se às 14h20min o sol estava dentro das minhas roupas, em casa eu estava dentro dele. Aqui é absurdamente quente, e nada que se faça consegue diminuir a sensação de se estar dentro de um forno de concreto. Assim, tudo que consegui fazer até as 18h00min se limitou a derreter em minha cama, empapando o colchão com meu suor – minha capacidade de suar faria Parsons, de _1984_, sentir inveja –, e assistir alguma coisa qualquer na televisão.
Só às 18h00min, quando saí de dentro do sol e viajei para a superfície de Vênus, consegui retomar a leitura. Minha mãe e minha prima preparavam alguns quitutes à guisa de comemoração do meu aniversário. Normalmente não passo esse dia em casa, pois não gosto de comemorá-lo, mas hoje não tive opção. Li até umas 19h00min, quando fui cuidar de meus gatos. Antes de morar com minha mãe, os gatos passeavam pela casa e conviviam com os humanos, embora as janelas fossem teladas por medida de segurança veterinária. Ao voltar a morar com ela, tive que construir um gatil para eles, já que ela não queria nove gatos dentro da casa dela. Enfim, desci ao gatil e fiquei com eles até umas 20h30min, quando subi, tomei banho, apliquei o adesivo de nicotina, e comemoramos meu aniversário. Minha esposa chegou por volta desse horário.
Passei o resto da noite lendo e conversando com minha esposa, ajudando-a a escolher com quais roupas ela iria trabalhar no dia seguinte. Senti sono cedo, talvez por conta da ausência do efeito estimulante do cigarro, e dormi.
Acordei no susto, era 06h00min. Hoje também foi o primeiro dia de trabalho da minha esposa, após alguns meses desempregada, e ela estava bem nervosa. Ela me acordou, na verdade, para que eu a ajudasse a não se atrapalhar ou ficar ansiosa e, por conta disso, travar. Olhei para o maço de cigarro, que fica na varanda já que nunca gostei de fumar dentro de casa, e pensei, _fique aí quietinho_. Já que eu iria para o primeiro encontro do programa antitabagismo hoje, por que eu iria acender um cigarro?
Pausa para uma explicação. Você, leitor, não me conhece, e portanto pode não saber que observo proximamente os preceitos do estoicismo. A ética estoica, com seu fundamento puramente racional e realista – algumas pessoas diriam fatalista ou conformista –, sempre me atraiu deveras, principalmente pela parte do não me deixar afetar por situações nas quais nada posso fazer para mudá-las. Gosto de citar uma passagem que meu sifu, à época em que eu praticava tai chi chuan, atribuiu à Buddha: _Se tem solução, não é um problema; se não tem, não é um problema_. Vem-me à mente, também, a _Oração da Serenidade_. Para quem não conhece a ética estoica, esses dois fragmentos de sabedoria servem, perfeitamente, para ilustrá-la.
Mas voltando. Minha esposa saiu para trabalhar, e eu voltei a dormir, pois a reunião era apenas às 13h30min e eu não conseguira fechar os olhos porque o sono dela foi muito agitado. Minha mãe me acordou às 09h00min, havia um pequeno reparo hidráulico a ser feito na casa da minha tia, minha vizinha, e talvez eu tivesse que ajudar, já que meu primo – que é quem costuma fazer isso para ela – talvez não pudesse. Felizmente meu primo pôde comparecer, e pude descansar mais um pouco.
Passei a próxima hora e meia lendo. Se senti vontade de fumar nesse meio tempo, não percebi. Minha mente é uma coisa engraçada: se eu enfio nas idéias que irei fazer algo, eu farei esse algo. Por que eu não parei de fumar antes, então? Resposta curta: não é apenas uma questão de querer parar de fumar, é uma questão de desejar parar de fumar. Entenda, leitor: querer e desejar, no sentido de vontade soberana, são coisas distintas. Certo, talvez se, ao invés de _querer_ e _desejar_, eu usar _ter desejo_ e _ter vontade_, fique mais fácil explicar-lhe o que quero dizer. Já tinha, há pelo menos um ano, o desejo de parar de fumar, mas só agora consegui condensar e cristalizar minha vontade nesse sentido. As pessoas, incluindo eu, querem muitas coisas, mas nem sempre conseguem focar a mente e a vontade para consegui-las.
Após a leitura, ajeitei algumas coisas em casa antes das 12h00min, o horário que eu havia estipulado para almoçar e sair de casa. Foi na hora do almoço que notei o primeiro efeito da ausência da nicotina: eu estava absolutamente sem fome, mesmo não havendo comido nada o dia inteiro. Para não ficar com o estômago vazio, comi um bife e uma fatia de pão, tomei meu banho e saí.
Caso o leitor não conheça Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, não vai entender o quanto eu me odeio sempre que preciso fazer algo por esse horário. No verão, o sol parece estar a uns cinquenta metros da sua cabeça e com o mais firme propósito de cozinhar as pessoas em vinte minutos. Sensação térmica de uns 48º, para quem gosta dos números. Com a usual resignação ante às coisas que não posso mudar, caminhei os quinze minutos que separam minha casa do ponto do primeiro ônibus que eu deveria pegar, sentindo minha pele fritar e as distâncias quadruplicarem. Parei em uma loja de doces para comprar a primeira garrafa d'água do dia, que bebi em um único gole.
Para minha sorte, o ônibus passou quase no mesmo momento em que cheguei ao ponto. Embarquei e fiquei ouvindo o motorista conversar com uma passageira, amiga dele, para me distrair. Saltei em Gramacho, com o propósito de pagar o IPTU na casa lotérica antes de pegar o segundo ônibus, mas o tamanho da fila me fez mudar de ideia, já que era 12h30min e eu tinha, portanto, apenas uma hora para chegar à reunião do programa antitabagismo – para quem não conhece, leva-se uns 30min, 40min, de ônibus entre os bairros de Gramacho e Pilar, e eu ainda teria que considerar a espera. Entretanto, minha boa sorte se manifestou mais uma vez, e não esperei nem cinco minutos para embarcar no ônibus que me deixou no PMS Pilar às 13h00min.
Comprei outra garrafa d'água, que também bebi toda de uma vez. Essa meia hora, gastei conversando com Tonhão, um camarada que vende salgados e refrescos em uma bicicleta. Como nesse momento eu senti fome, comi um hambúrguer de forno dele, a carne artesanal bem temperada apesar de um pouco dura – ele deve ter fritado o hambúrguer antes de levá-lo ao forno –, mas foi uma conversa ligeira, dessas de fila de banco apenas para matar o tempo. Fiquei com uma boa impressão dele. Semana que vem, dia da próxima reunião, caso ele esteja por lá, comprarei outro salgado e conversarei mais um pouco com ele.
Às 13h20min, fui para o local das reuniões do programa antitabagismo. A responsável pelo atendimento, enfermeira Vera, colheu alguns dados meus e de minha esposa, já que ela também havia agendado participação mas, como ela não é Santo Antônio para estar em dois lugares ao mesmo tempo, não pôde ir. Enquanto aguardava, fiquei conversando com seu Jorge, um senhor que, assim como eu, estava ali pela primeira vez. Ele falava muito baixo, ou o ruído de fundo no PMS era intenso, de modo que não conseguia entender tudo que ele me dizia, mas mesmo assim apreendi um pouco sobre sua história de vida. Ele está na luta contra o câncer de próstata, e pelo que entendi a família dele não o apoia muito nessa luta. Apesar disso, seu Jorge é uma pessoa bem-humorada, que brinca, faz piadas da própria situação e tenta manter uma postura positiva perante a vida.
Enfim, a reunião. Havia ali umas dez pessoas que, assim como seu Jorge e eu, querem parar de fumar – espero que também desejem isso –, e Vera nos deu uma preleção sobre como o programa antitabagismo é um mero suporte para ajudar a cada um de nós a parar. História longa feita curta, se não houver o desejo por parte do participante, de nada adianta o programa. Ela também explicou o uso, cuidados e restrições dos adesivos de nicotina, e abriu para perguntas. Como não as havia, ela distribuiu uma cartilha, com informações e exercícios cognitivos que fazem parte do programa antitabagismo. _De volta à escola_, pensei, mas afastei essa rejeição de pronto da minha mente: se eu conseguisse parar de fumar sem o programa, eu não precisaria disso, mas como não consigo, sigo as regras do programa.
Peguei a prescrição semanal de adesivos de nicotina para minha esposa (14 mg) e para mim (21 mg), agendei o retorno para avaliação e mais adesivos para semana que vem, dia 06 de fevereiro de 2020, e encaminhei-me para o ponto de ônibus. Se ao meio dia o sol parecia estar a uns cinquenta metros de minha cabeça, às 14h20min ele certamente estava dentro das minhas roupas. Peguei o ônibus de volta para o Gramacho, e desta vez tive de encarar a fila da casa lotérica para pagar o IPTU. Felizmente, havia umas quatro pessoas na minha frente só, de modo que rapidamente me desembaracei dessa obrigação e voltei para casa.
Se às 14h20min o sol estava dentro das minhas roupas, em casa eu estava dentro dele. Aqui é absurdamente quente, e nada que se faça consegue diminuir a sensação de se estar dentro de um forno de concreto. Assim, tudo que consegui fazer até as 18h00min se limitou a derreter em minha cama, empapando o colchão com meu suor – minha capacidade de suar faria Parsons, de _1984_, sentir inveja –, e assistir alguma coisa qualquer na televisão.
Só às 18h00min, quando saí de dentro do sol e viajei para a superfície de Vênus, consegui retomar a leitura. Minha mãe e minha prima preparavam alguns quitutes à guisa de comemoração do meu aniversário. Normalmente não passo esse dia em casa, pois não gosto de comemorá-lo, mas hoje não tive opção. Li até umas 19h00min, quando fui cuidar de meus gatos. Antes de morar com minha mãe, os gatos passeavam pela casa e conviviam com os humanos, embora as janelas fossem teladas por medida de segurança veterinária. Ao voltar a morar com ela, tive que construir um gatil para eles, já que ela não queria nove gatos dentro da casa dela. Enfim, desci ao gatil e fiquei com eles até umas 20h30min, quando subi, tomei banho, apliquei o adesivo de nicotina, e comemoramos meu aniversário. Minha esposa chegou por volta desse horário.
Passei o resto da noite lendo e conversando com minha esposa, ajudando-a a escolher com quais roupas ela iria trabalhar no dia seguinte. Senti sono cedo, talvez por conta da ausência do efeito estimulante do cigarro, e dormi.
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