Decidi, enfim, que iria parar de fumar. Com o auxílio de meu psicólogo, dr. Ruimar Marques, consegui me inscrever no programa antitabagismo do Posto Municipal de Saúde (PMS) do Pilar, em Duque de Caxias/RJ. O primeiro encontro com os profissionais do programa foi marcado para hoje. Coincidentemente, é meu aniversário.
Acordei no susto, era 06h00min. Hoje também foi o primeiro dia de trabalho da minha esposa, após alguns meses desempregada, e ela estava bem nervosa. Ela me acordou, na verdade, para que eu a ajudasse a não se atrapalhar ou ficar ansiosa e, por conta disso, travar. Olhei para o maço de cigarro, que fica na varanda já que nunca gostei de fumar dentro de casa, e pensei, _fique aí quietinho_. Já que eu iria para o primeiro encontro do programa antitabagismo hoje, por que eu iria acender um cigarro?
Pausa para uma explicação. Você, leitor, não me conhece, e portanto pode não saber que observo proximamente os preceitos do estoicismo. A ética estoica, com seu fundamento puramente racional e realista – algumas pessoas diriam fatalista ou conformista –, sempre me atraiu deveras, principalmente pela parte do não me deixar afetar por situações nas quais nada posso fazer para mudá-las. Gosto de citar uma passagem que meu sifu, à época em que eu praticava tai chi chuan, atribuiu à Buddha: _Se tem solução, não é um problema; se não tem, não é um problema_. Vem-me à mente, também, a _Oração da Serenidade_. Para quem não conhece a ética estoica, esses dois fragmentos de sabedoria servem, perfeitamente, para ilustrá-la.
Mas voltando. Minha esposa saiu para trabalhar, e eu voltei a dormir, pois a reunião era apenas às 13h30min e eu não conseguira fechar os olhos porque o sono dela foi muito agitado. Minha mãe me acordou às 09h00min, havia um pequeno reparo hidráulico a ser feito na casa da minha tia, minha vizinha, e talvez eu tivesse que ajudar, já que meu primo – que é quem costuma fazer isso para ela – talvez não pudesse. Felizmente meu primo pôde comparecer, e pude descansar mais um pouco.
Passei a próxima hora e meia lendo. Se senti vontade de fumar nesse meio tempo, não percebi. Minha mente é uma coisa engraçada: se eu enfio nas idéias que irei fazer algo, eu farei esse algo. Por que eu não parei de fumar antes, então? Resposta curta: não é apenas uma questão de querer parar de fumar, é uma questão de desejar parar de fumar. Entenda, leitor: querer e desejar, no sentido de vontade soberana, são coisas distintas. Certo, talvez se, ao invés de _querer_ e _desejar_, eu usar _ter desejo_ e _ter vontade_, fique mais fácil explicar-lhe o que quero dizer. Já tinha, há pelo menos um ano, o desejo de parar de fumar, mas só agora consegui condensar e cristalizar minha vontade nesse sentido. As pessoas, incluindo eu, querem muitas coisas, mas nem sempre conseguem focar a mente e a vontade para consegui-las.
Após a leitura, ajeitei algumas coisas em casa antes das 12h00min, o horário que eu havia estipulado para almoçar e sair de casa. Foi na hora do almoço que notei o primeiro efeito da ausência da nicotina: eu estava absolutamente sem fome, mesmo não havendo comido nada o dia inteiro. Para não ficar com o estômago vazio, comi um bife e uma fatia de pão, tomei meu banho e saí.
Caso o leitor não conheça Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, não vai entender o quanto eu me odeio sempre que preciso fazer algo por esse horário. No verão, o sol parece estar a uns cinquenta metros da sua cabeça e com o mais firme propósito de cozinhar as pessoas em vinte minutos. Sensação térmica de uns 48º, para quem gosta dos números. Com a usual resignação ante às coisas que não posso mudar, caminhei os quinze minutos que separam minha casa do ponto do primeiro ônibus que eu deveria pegar, sentindo minha pele fritar e as distâncias quadruplicarem. Parei em uma loja de doces para comprar a primeira garrafa d'água do dia, que bebi em um único gole.
Para minha sorte, o ônibus passou quase no mesmo momento em que cheguei ao ponto. Embarquei e fiquei ouvindo o motorista conversar com uma passageira, amiga dele, para me distrair. Saltei em Gramacho, com o propósito de pagar o IPTU na casa lotérica antes de pegar o segundo ônibus, mas o tamanho da fila me fez mudar de ideia, já que era 12h30min e eu tinha, portanto, apenas uma hora para chegar à reunião do programa antitabagismo – para quem não conhece, leva-se uns 30min, 40min, de ônibus entre os bairros de Gramacho e Pilar, e eu ainda teria que considerar a espera. Entretanto, minha boa sorte se manifestou mais uma vez, e não esperei nem cinco minutos para embarcar no ônibus que me deixou no PMS Pilar às 13h00min.
Comprei outra garrafa d'água, que também bebi toda de uma vez. Essa meia hora, gastei conversando com Tonhão, um camarada que vende salgados e refrescos em uma bicicleta. Como nesse momento eu senti fome, comi um hambúrguer de forno dele, a carne artesanal bem temperada apesar de um pouco dura – ele deve ter fritado o hambúrguer antes de levá-lo ao forno –, mas foi uma conversa ligeira, dessas de fila de banco apenas para matar o tempo. Fiquei com uma boa impressão dele. Semana que vem, dia da próxima reunião, caso ele esteja por lá, comprarei outro salgado e conversarei mais um pouco com ele.
Às 13h20min, fui para o local das reuniões do programa antitabagismo. A responsável pelo atendimento, enfermeira Vera, colheu alguns dados meus e de minha esposa, já que ela também havia agendado participação mas, como ela não é Santo Antônio para estar em dois lugares ao mesmo tempo, não pôde ir. Enquanto aguardava, fiquei conversando com seu Jorge, um senhor que, assim como eu, estava ali pela primeira vez. Ele falava muito baixo, ou o ruído de fundo no PMS era intenso, de modo que não conseguia entender tudo que ele me dizia, mas mesmo assim apreendi um pouco sobre sua história de vida. Ele está na luta contra o câncer de próstata, e pelo que entendi a família dele não o apoia muito nessa luta. Apesar disso, seu Jorge é uma pessoa bem-humorada, que brinca, faz piadas da própria situação e tenta manter uma postura positiva perante a vida.
Enfim, a reunião. Havia ali umas dez pessoas que, assim como seu Jorge e eu, querem parar de fumar – espero que também desejem isso –, e Vera nos deu uma preleção sobre como o programa antitabagismo é um mero suporte para ajudar a cada um de nós a parar. História longa feita curta, se não houver o desejo por parte do participante, de nada adianta o programa. Ela também explicou o uso, cuidados e restrições dos adesivos de nicotina, e abriu para perguntas. Como não as havia, ela distribuiu uma cartilha, com informações e exercícios cognitivos que fazem parte do programa antitabagismo. _De volta à escola_, pensei, mas afastei essa rejeição de pronto da minha mente: se eu conseguisse parar de fumar sem o programa, eu não precisaria disso, mas como não consigo, sigo as regras do programa.
Peguei a prescrição semanal de adesivos de nicotina para minha esposa (14 mg) e para mim (21 mg), agendei o retorno para avaliação e mais adesivos para semana que vem, dia 06 de fevereiro de 2020, e encaminhei-me para o ponto de ônibus. Se ao meio dia o sol parecia estar a uns cinquenta metros de minha cabeça, às 14h20min ele certamente estava dentro das minhas roupas. Peguei o ônibus de volta para o Gramacho, e desta vez tive de encarar a fila da casa lotérica para pagar o IPTU. Felizmente, havia umas quatro pessoas na minha frente só, de modo que rapidamente me desembaracei dessa obrigação e voltei para casa.
Se às 14h20min o sol estava dentro das minhas roupas, em casa eu estava dentro dele. Aqui é absurdamente quente, e nada que se faça consegue diminuir a sensação de se estar dentro de um forno de concreto. Assim, tudo que consegui fazer até as 18h00min se limitou a derreter em minha cama, empapando o colchão com meu suor – minha capacidade de suar faria Parsons, de _1984_, sentir inveja –, e assistir alguma coisa qualquer na televisão.
Só às 18h00min, quando saí de dentro do sol e viajei para a superfície de Vênus, consegui retomar a leitura. Minha mãe e minha prima preparavam alguns quitutes à guisa de comemoração do meu aniversário. Normalmente não passo esse dia em casa, pois não gosto de comemorá-lo, mas hoje não tive opção. Li até umas 19h00min, quando fui cuidar de meus gatos. Antes de morar com minha mãe, os gatos passeavam pela casa e conviviam com os humanos, embora as janelas fossem teladas por medida de segurança veterinária. Ao voltar a morar com ela, tive que construir um gatil para eles, já que ela não queria nove gatos dentro da casa dela. Enfim, desci ao gatil e fiquei com eles até umas 20h30min, quando subi, tomei banho, apliquei o adesivo de nicotina, e comemoramos meu aniversário. Minha esposa chegou por volta desse horário.
Passei o resto da noite lendo e conversando com minha esposa, ajudando-a a escolher com quais roupas ela iria trabalhar no dia seguinte. Senti sono cedo, talvez por conta da ausência do efeito estimulante do cigarro, e dormi.
Acordei no susto, era 06h00min. Hoje também foi o primeiro dia de trabalho da minha esposa, após alguns meses desempregada, e ela estava bem nervosa. Ela me acordou, na verdade, para que eu a ajudasse a não se atrapalhar ou ficar ansiosa e, por conta disso, travar. Olhei para o maço de cigarro, que fica na varanda já que nunca gostei de fumar dentro de casa, e pensei, _fique aí quietinho_. Já que eu iria para o primeiro encontro do programa antitabagismo hoje, por que eu iria acender um cigarro?
Pausa para uma explicação. Você, leitor, não me conhece, e portanto pode não saber que observo proximamente os preceitos do estoicismo. A ética estoica, com seu fundamento puramente racional e realista – algumas pessoas diriam fatalista ou conformista –, sempre me atraiu deveras, principalmente pela parte do não me deixar afetar por situações nas quais nada posso fazer para mudá-las. Gosto de citar uma passagem que meu sifu, à época em que eu praticava tai chi chuan, atribuiu à Buddha: _Se tem solução, não é um problema; se não tem, não é um problema_. Vem-me à mente, também, a _Oração da Serenidade_. Para quem não conhece a ética estoica, esses dois fragmentos de sabedoria servem, perfeitamente, para ilustrá-la.
Mas voltando. Minha esposa saiu para trabalhar, e eu voltei a dormir, pois a reunião era apenas às 13h30min e eu não conseguira fechar os olhos porque o sono dela foi muito agitado. Minha mãe me acordou às 09h00min, havia um pequeno reparo hidráulico a ser feito na casa da minha tia, minha vizinha, e talvez eu tivesse que ajudar, já que meu primo – que é quem costuma fazer isso para ela – talvez não pudesse. Felizmente meu primo pôde comparecer, e pude descansar mais um pouco.
Passei a próxima hora e meia lendo. Se senti vontade de fumar nesse meio tempo, não percebi. Minha mente é uma coisa engraçada: se eu enfio nas idéias que irei fazer algo, eu farei esse algo. Por que eu não parei de fumar antes, então? Resposta curta: não é apenas uma questão de querer parar de fumar, é uma questão de desejar parar de fumar. Entenda, leitor: querer e desejar, no sentido de vontade soberana, são coisas distintas. Certo, talvez se, ao invés de _querer_ e _desejar_, eu usar _ter desejo_ e _ter vontade_, fique mais fácil explicar-lhe o que quero dizer. Já tinha, há pelo menos um ano, o desejo de parar de fumar, mas só agora consegui condensar e cristalizar minha vontade nesse sentido. As pessoas, incluindo eu, querem muitas coisas, mas nem sempre conseguem focar a mente e a vontade para consegui-las.
Após a leitura, ajeitei algumas coisas em casa antes das 12h00min, o horário que eu havia estipulado para almoçar e sair de casa. Foi na hora do almoço que notei o primeiro efeito da ausência da nicotina: eu estava absolutamente sem fome, mesmo não havendo comido nada o dia inteiro. Para não ficar com o estômago vazio, comi um bife e uma fatia de pão, tomei meu banho e saí.
Caso o leitor não conheça Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, não vai entender o quanto eu me odeio sempre que preciso fazer algo por esse horário. No verão, o sol parece estar a uns cinquenta metros da sua cabeça e com o mais firme propósito de cozinhar as pessoas em vinte minutos. Sensação térmica de uns 48º, para quem gosta dos números. Com a usual resignação ante às coisas que não posso mudar, caminhei os quinze minutos que separam minha casa do ponto do primeiro ônibus que eu deveria pegar, sentindo minha pele fritar e as distâncias quadruplicarem. Parei em uma loja de doces para comprar a primeira garrafa d'água do dia, que bebi em um único gole.
Para minha sorte, o ônibus passou quase no mesmo momento em que cheguei ao ponto. Embarquei e fiquei ouvindo o motorista conversar com uma passageira, amiga dele, para me distrair. Saltei em Gramacho, com o propósito de pagar o IPTU na casa lotérica antes de pegar o segundo ônibus, mas o tamanho da fila me fez mudar de ideia, já que era 12h30min e eu tinha, portanto, apenas uma hora para chegar à reunião do programa antitabagismo – para quem não conhece, leva-se uns 30min, 40min, de ônibus entre os bairros de Gramacho e Pilar, e eu ainda teria que considerar a espera. Entretanto, minha boa sorte se manifestou mais uma vez, e não esperei nem cinco minutos para embarcar no ônibus que me deixou no PMS Pilar às 13h00min.
Comprei outra garrafa d'água, que também bebi toda de uma vez. Essa meia hora, gastei conversando com Tonhão, um camarada que vende salgados e refrescos em uma bicicleta. Como nesse momento eu senti fome, comi um hambúrguer de forno dele, a carne artesanal bem temperada apesar de um pouco dura – ele deve ter fritado o hambúrguer antes de levá-lo ao forno –, mas foi uma conversa ligeira, dessas de fila de banco apenas para matar o tempo. Fiquei com uma boa impressão dele. Semana que vem, dia da próxima reunião, caso ele esteja por lá, comprarei outro salgado e conversarei mais um pouco com ele.
Às 13h20min, fui para o local das reuniões do programa antitabagismo. A responsável pelo atendimento, enfermeira Vera, colheu alguns dados meus e de minha esposa, já que ela também havia agendado participação mas, como ela não é Santo Antônio para estar em dois lugares ao mesmo tempo, não pôde ir. Enquanto aguardava, fiquei conversando com seu Jorge, um senhor que, assim como eu, estava ali pela primeira vez. Ele falava muito baixo, ou o ruído de fundo no PMS era intenso, de modo que não conseguia entender tudo que ele me dizia, mas mesmo assim apreendi um pouco sobre sua história de vida. Ele está na luta contra o câncer de próstata, e pelo que entendi a família dele não o apoia muito nessa luta. Apesar disso, seu Jorge é uma pessoa bem-humorada, que brinca, faz piadas da própria situação e tenta manter uma postura positiva perante a vida.
Enfim, a reunião. Havia ali umas dez pessoas que, assim como seu Jorge e eu, querem parar de fumar – espero que também desejem isso –, e Vera nos deu uma preleção sobre como o programa antitabagismo é um mero suporte para ajudar a cada um de nós a parar. História longa feita curta, se não houver o desejo por parte do participante, de nada adianta o programa. Ela também explicou o uso, cuidados e restrições dos adesivos de nicotina, e abriu para perguntas. Como não as havia, ela distribuiu uma cartilha, com informações e exercícios cognitivos que fazem parte do programa antitabagismo. _De volta à escola_, pensei, mas afastei essa rejeição de pronto da minha mente: se eu conseguisse parar de fumar sem o programa, eu não precisaria disso, mas como não consigo, sigo as regras do programa.
Peguei a prescrição semanal de adesivos de nicotina para minha esposa (14 mg) e para mim (21 mg), agendei o retorno para avaliação e mais adesivos para semana que vem, dia 06 de fevereiro de 2020, e encaminhei-me para o ponto de ônibus. Se ao meio dia o sol parecia estar a uns cinquenta metros de minha cabeça, às 14h20min ele certamente estava dentro das minhas roupas. Peguei o ônibus de volta para o Gramacho, e desta vez tive de encarar a fila da casa lotérica para pagar o IPTU. Felizmente, havia umas quatro pessoas na minha frente só, de modo que rapidamente me desembaracei dessa obrigação e voltei para casa.
Se às 14h20min o sol estava dentro das minhas roupas, em casa eu estava dentro dele. Aqui é absurdamente quente, e nada que se faça consegue diminuir a sensação de se estar dentro de um forno de concreto. Assim, tudo que consegui fazer até as 18h00min se limitou a derreter em minha cama, empapando o colchão com meu suor – minha capacidade de suar faria Parsons, de _1984_, sentir inveja –, e assistir alguma coisa qualquer na televisão.
Só às 18h00min, quando saí de dentro do sol e viajei para a superfície de Vênus, consegui retomar a leitura. Minha mãe e minha prima preparavam alguns quitutes à guisa de comemoração do meu aniversário. Normalmente não passo esse dia em casa, pois não gosto de comemorá-lo, mas hoje não tive opção. Li até umas 19h00min, quando fui cuidar de meus gatos. Antes de morar com minha mãe, os gatos passeavam pela casa e conviviam com os humanos, embora as janelas fossem teladas por medida de segurança veterinária. Ao voltar a morar com ela, tive que construir um gatil para eles, já que ela não queria nove gatos dentro da casa dela. Enfim, desci ao gatil e fiquei com eles até umas 20h30min, quando subi, tomei banho, apliquei o adesivo de nicotina, e comemoramos meu aniversário. Minha esposa chegou por volta desse horário.
Passei o resto da noite lendo e conversando com minha esposa, ajudando-a a escolher com quais roupas ela iria trabalhar no dia seguinte. Senti sono cedo, talvez por conta da ausência do efeito estimulante do cigarro, e dormi.
Nenhum comentário:
Postar um comentário